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SALDO DO FÓRUM SOCIAL MUNDIAL
Tive a oportunidade de participar do
Fórum Social Mundial de 2001, realizado em Porto Alegre.
Foi uma das maiores experiências de minha vida. O
encontro ao ar livre com pessoas de todos os cantos do
planeta, a maioria buscando ansiosamente uma alternativa
ao neoliberalismo transnacional. Aquele encontro de
tantas nacionalidades diferentes na busca de um objetivo
maior gera uma euforia coletiva que é difícil descrever
para quem não teve a oportunidade de estar lá. Senti-me
20 anos mais novo, com capacidade redobrada de sonhar e
conquistar algo melhor.
Mas a catarse coletiva e a diversão, que
foram as tônicas do encontro, não foram - ao menos
nominalmente - os objetivos oficiais daquele encontro. O
objetivo propalado era o de propor uma alternativa ao
neoliberalismo. Nada vagamente parecido com isso
aconteceu em Porto Alegre em 2001. Após uma infinidade
de palestras e seminários sobre temas muito díspares
entre si, que incluíam desde a guerrilha na Colômbia até
os transgênicos na agricultura e, não consegui descobrir
como, por culinária e origami, foi chamada uma plenária
final com o objetivo de se divulgar uma conclusão do
encontro. Na hora marcada fui até a sala onde
aconteceria a plenária final e, para minha surpresa, em
lugar de encontrar um debate sobre todos os temas
propostos, vi uma peça teatral - que não estava agendada
- ser apresentada.
Apesar de toda a euforia e a diversão que
foram a tônica do Fórum de 2001, não pude deixar de me
sentir frustrado após o encerramento, frustração essa
que, pelo que pude ver, compartilhei com diversos
participantes que lá encontrei vindos de várias partes
do mundo. Afinal, não fui lá para me divertir. Pensei
que talvez fosse por ter sido a primeira vez. Afinal, os
organizadores ainda não tinham experiência de realizar
algo assim. Talvez - pensei - no ano que vem eles
consigam aparar algumas arestas e chegar ao objetivo a
que se propuseram. 2002 chegou e, embora eu não tenha
ido pessoalmente nesta versão do Fórum, tenho contato
com pessoas que foram. Seus depoimentos coincidem com o
meu: muita diversão, muita euforia, mas nenhuma
discussão séria e prática. O mesmo se deu em 2003 e
2004, desta vez na Índia. Acabamos de testemunhar a 5a
versão deste encontro, neste fevereiro de 2005. É a hora
de perguntar: pra que isso tudo? Afinal, em nome de que
tantas pessoas vindas de locais tão distantes se
reuniram tantas vezes? O que foi produzido?
Em 2006 teremos uma nova versão deste
evento. É o que anunciam seus organizadores. Agora,
escorado na experiência de 5 versões desses encontros
está na hora de exigir umaexplicação: Afinal, qual é o
objetivo de toda essa movimentação? Os primeiros 5
encontros não produziram nada senão uma grande
encenação. O 6° produzirá algo além disso?
É uma técnica bem descrita na literatura,
a de, o grupo que está na situação, criar movimentos de
oposição a si próprio para, com isso, controlar não
somente a situação mas, também a oposição a seus
governos. Usando a máquina que controlam, criam
oposições bem aparelhadas, as quais inibem o nascimento
de movimentos oposicionistas autênticos, porém com pouca
estrutura própria. Destarte, chamam os donos do poder os
oposicionistas para seu próprio controle, matando a
possibilidade de oposições verdadeiras terem um canal
próprio. Será que não foi a isso que assistimos em Porto
Alegre?
Mário Villas-boas
Membro do Conselho dos 12 do
MV-Brasil |