Jornal do Brasil - Caderno B - 15/01/2000
Mouse para eles é rato
Mauro Ventura
A camisa chama atenção. Na frente, a palavra USA riscada de vermelho e os dizeres: "Resistir é preciso. Viva o Brasil!!!" Atrás, vem escrito: "Movimento pela Valorização da Cultura, do Idioma e das Riquezas do Brasil." Nos próximos dias, esse mote vai estar em 2.500 cartazes, em 100 mil adesivos e milhares de apostilas e bottoms - quer dizer, botões - espalhados pela cidade. É o MV-Brasil (nada a ver com as iniciais do colunista) ou Movimento pela Valorização do Brasil, recém-criado por estudantes de Direito do Rio. Eles têm uma retórica típica dos anos 60, usando termos como imperialismo, invasão cultural, violação de soberania e submissão aos Estados Unidos. Têm métodos quixotescos, como marchar e soltar rojões contra a Estátua da Liberdade da Barra e questionar cada vendedor de hot dog. Pregam a despoluição total da língua portuguesa, como usar rato em vez de mouse e microprocessador eletrônico no lugar de chip. E são desconfiados à beça: "Você tem crachá do Jornal? A gente nunca sabe. Na marcha, tinha 30 policiais infiltrados." Mas levam a algum questionamento. O pé-sujo ao lado do IML (Instituto Médico Legal), alí na Rua dos Inválidos, ganha alguma coisa se chamando House Food? A placa na sala do diretor do IML tem mesmo que avisar: Stop? Por que cada vez se vê menos a sigla EUA e mais USA? A lancha da prefeitura que recolhe lixo na Baía deve mesmo se chamar Eco Boat? Por que no anúncio do prédio está escrito family theater? O Banco do Brasil precisa apelidar seu serviço de personal banking? Por que a mãe vê a placa Made in USA, acha bonito e põe o nome da criança de Madeinusa? No fim das contas, o que é estadunidense transformou-se em sinônimo de qualidade e de credibilidade. E o que é brasileiro ficou identificado como ruim. Mas vem cá, desde quando chamar cabeleireiro de hairdresser é chique?