E-Phoca - Jornal Laboratório da Escola de Comunicaçãoda UFRJ
Nas trincheiras do nacionalismo
por David Butter
Wagner Vasconcelos (esq.) é um dos fundadores do MV-BrasilReunidos sob o nome de Movimento pela Valorização da Cultura, doIdioma e das Riquezas do Brasil (MV-Brasil), um grupo de estudantes, militares, professores e aposentados vem recolocando o nacionalismo na ordem do dia. Adesivos, camisas e cartazes estampam as mensagens cívicas do movimento. Apelos como "Reaja povo brasileiro!" e "Valorize a cultura nacional" podem ser encontrados nos muros da cidade.
Em menos de dois anos de existência, o MV-Brasil vem centrando energias na luta contra o abuso de palavras estrangeiras no cotidiano do brasileiro. A fala, a escrita, a música, a propaganda - em cada forma de expressão a organização vê um campo de batalha, no qual os interesses nacionais se batem contra a "influência degenerante" do exterior.
Com manifestações conhecidas no jargão do grupo como "arrastões culturais", o MV-Brasil sai às ruas para divulgar idéias e conquistar simpatizantes. Palavras inglesas em camisas e vitrines não passam
despercebidas, motivando discursos e panfletagem na entrada de lojas que reproduzem, de alguma forma, a "cultura superficial e violenta dos EUA".
Um protesto realizado no New York City Center, na Barra da Tijuca, em novembro de 99, foi o primeiro dos arrastões culturais e marcou a fundação do MV-Brasil. "Protestamos aos pés daquela falsa Estátua da Liberdade. Alguns mais exaltados chegaram a soltar rojões direcionados para a cabeça. Quase arrancam a orelha da estátua", afirma, com orgulho, Wagner Vasconcelos, membro do conselho do movimento.
O MV-Brasil possui oito núcleos no estado do Rio de Janeiro e um no Distrito Federal, localizado dentro da UnB. Tem 950 membros catalogados e cerca de 60 pessoas atuando diretamente na mobilização e na coordenação - nenhuma em horário integral.
O financiamento das atividades é feito com o dinheiro arrecadado com doações dos próprios membros e com a venda de camisas.
O nacionalismo contras as bestas-feras do imperialismo
Quem ainda não viu estes cartazes?
O nacionalismo do MV-Brasil não é somente lingüístico. Abrange a política e a economia e está articulado em um amplo projeto de poder. A opção pela luta em defesa da língua como forma de ganhar visibilidade atendeu a considerações táticas. Na visão dos participantes do grupo, língua e cultura servem como "cartões de visita".
O estudante de Direito da UFRJ, Wagner Vasconcelos, 35 anos, um dos fundadores, não esconde os objetivos do MV-Brasil. "A micro-revolução pessoal que propomos através da língua e da cultura é prelúdio de uma revolução mais profunda. Não há assunto que fique fora do nosso movimento".
Wagner tem um discurso afiado. Em hora e meia de entrevista transformada em palestra transita por entre diferentes campos de conhecimento. Busca persuadir lançando mão de dados estatísticos e informações históricas. Fala sem parar.
Sobre política internacional, "a cultura estadunidense caiu sobre a América como a besta do apocalipse" ou ainda, "composto de trezentos grandes executivos de multinacionais, o Governo Secreto domina o planeta, acima da ONU e dos EUA, distribuindo cartas da morte pelo mundo", e nacional, "o representante-mor do governo secreto no Brasil é Roberto Marinho, a besta-fera do Jardim Botânico".
Interpreta à sua maneira a crise energética, "eles previram que se não restringissem energicamente o Brasil, o país corria o risco de deslanchar". Quando fala sobre a influência estadunidense na Barra da Tijuca solta a veia de profeta, "o tanque da História passará pelas ruas da Barra derrubando aquilo tudo".
Para Wagner, a propaganda por meio de cartazes espalhados pelo Rio de Janeiro serve para a criação de expectativa. "Fazemos como os romanos que já usavam essa técnica de propaganda nas conquistas, inclusive na invasão das Ilhas Britânicas, onde ficamos por 450 anos ensinando os bárbaros a serem gente. Agora eles querem inverter o papel", explica.
O Gurgel nacionalista de Wagner
O MV-Brasil se preocupa com a montagem de "um esquema de comunicação paralelo para levar informações estratégicas para a população". Para tanto, investe na produção de panfletos e apostilas buscando alcançar segmentos profissionais específicos, como militares e jornalistas.
Um sentido de missão move os participantes do MV-Brasil. Os participantes do movimento sentem-se destinados a cumprir uma tarefa. "Por mais degenerado que esteja o ambiente, sempre existe uma minoria que, independente do lugar onde nasce, vê a verdade", garante Wagner, motorista de um Gurgel 86.