Estado de São Paulo - 05/01/2001
Grupo
combate estrangeirismo
Movimento
carioca faz campanha para que os brasileiros não adotem termos em inglês
Clarissa Thomé
Rio - Eles não compram produtos importados, circulam em carros da extinta fábrica
de automóveis Gurgel, evitam comer no "emecê Donald" e querem distância
do "Rock no Rio". O Movimento pela Valorização da Cultura, do Idioma
e das Riquezas do Brasil (MV-Brasil) faz há um ano campanha para que palavras
e expressões em inglês deixem de ser adotadas por brasileiros. Espalham cartazes
pelo centro, explicando que hot-dog é cachorro-quente e e-mail
não passa de correio eletrônico, fizeram marchas e arrastões culturais e evocam
o 13.º artigo da Constituição - o português é o idioma oficial do Brasil - toda
vez que uma propaganda usa termos estrangeiros, como sale para informar
que está em liquidação.
"Caberia à Academia Brasileira de Letras o papel constitucional de fazer valer o artigo 13, mas ela não cumpre esta função. Eles não tem dignidade de defender o idioma nacional", afirma Wagner Vasconcelos, conselheiro do MV-Brasil, de 34 anos. Estudante de direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro e um dos 12 fundadores do movimento, Vasconcelos morou sete anos no Canadá e nos Estados Unidos.
Para ele, a invasão de palavras estrangeiras ocorre por força econômica e política. Por isso, defende o resgate cultural brasileiro e prega o boicote a produtos estrangeiros e à programação cultural "estadunidense" - o MV-Brasil acredita que o termo "americano" está mais ligado à "latinidade", por ter se originado do nome de Américo Vespúcio.
"Queremos recuperar a auto-estima do brasileiro, que os jovens tenham vergonha de andar com a bandeira dos Estados Unidos estampada no peito", diz o estudante. "A ojeriza não é contra os povos estrangeiros, mas contra 'globanalização'." O chavão do grupo é a sigla USA, coberto por um xis, sobre a frase "resistir é preciso!".
Vasconcelos não teme que o nacionalismo defendido pelo MV-Brasil seja confundido com preceitos nazistas. "Recusamos o rótulo de fascistas, comunistas, integralistas. A base das nossas idéias é humanista, de valorização da vida. Esse nacionalismo é provisório e se dá por conta por conta da invasão das empresas transnacionais."
Projetos - Este ano, o grupo pretende fazer um estudo das empresas e classificá-las de acordo com o investimento estrangeiro, variando de uma a cinco caveiras, quanto maior for o capital internacional. Eles também vão distribuir apostilas à população e jornalistas para explicar os objetivos e organizar palestras para estudantes.
Para garantir suas atividades, o MV-Brasil utiliza a gráfica de sindicatos, vende camisetas em banca de jornal - cerca de 6 mil foram espalhadas - e tem apoio de "militares de alta patente", informa Vasconcelos.