Tribuna da Imprensa - Opinião - 03/03/2001

Em defesa do idioma

João Evangelista Mendes da Rocha

Do capítulo 7 do nosso livro, extraímos os trechos dos artigos intitulados: Idioma pátrio continua sendo invadido; O idioma como alavanca de defesa nacional e; O idioma pátrio ameaçado. (...)

Já denunciamos como invasores do idioma pátrio alguns termos estrangeiros que, à força de sua repetição na mídia e na imprensa, vão conquistando o direito de aceitação até pelo dicionário Aurélio, inclusive com a pronúncia das palavras no idioma de origem, o que é muito estranho. Citemos algumas: marketing, kit, ranking, status, shopping, design e tantas outras ligadas à informática, que teimam em permanecer em nossa língua, sem o reconhecimento de que possuímos termos e expressões equivalentes ao significado daquelas palavras vindas de fora. É o caso do palavra inglesa "show".

Afinal, um idioma em que se expressaram Ruy Barbosa e Machado de Assis, só deve evoluir, dentro dos seus próprios fundamentos lingüísticos, como vernáculo oficial de oito países da Comunidade dos Países da Língua Portuguesa, representando mais de 200 milhões de habitantes - o Brasil, com seu peso maior em população e responsabilidade. Por isso é que fui tomado de justa euforia com a recente reportagem do "Jornal do Brasil" (4/2/2001), intitulada "Speak português?"

Um arrastão para resgatar a língua, em que é denunciada a invasão de estrangeirismos, em nosso cotidiano, para alguns, fruto natural da globalização, mas, para outros, como eu, um atentado à soberania. A reportagem, logo e esclarecedora, assinada por Adílson Pereira, animam-me na luta em que estamos empenhados, há anos, trazendo ao meu conhecimento um projeto e de um movimento em favor do Português.

O primeiro, refere-se ao projeto do deputado federal Aldo Rebelo (PCdoB-DF), em tramitação, e que "dispõe sobre a promoção, a proteção, a defesa e o uso da língua portuguesa". E o segundo, um "Movimento Pela Valorização da Cultura, do Idioma e das Riquezas do Brasil".

Tanto o projeto parlamentar como o oportuno movimento estão em plena atividade e, bem articulados, poderão prestar ao nosso idioma um inestimável serviço cultural, sem enveredarmos pelos caminhos da xenofobia e de não-aceitação de neologismos que venham enriquecer a língua, mas plenamente conscientes de que o abuso de estrangeirismos é dos piores males para o nosso idioma. Para certas palavras, o caminho certo é seu aportuguesamento, como as temos na linguagem futebolística. E futebol, de origem inglesa, é o melhor exemplo.

Para conter o avanço de termos e expressões em inglês e outros idiomas, a França, pioneira nesta reação, possui uma legislação que define os limites do uso de línguas estrangeiras no país, desde 1994. O francês considera a invasão desses termos uma questão política, de sentido globalizante, e aplaude Albert Campus, um dos mais ilustres representantes das letras francesas, quando disse: "Sim, eu tenho uma pátria, a língua francesa", numa comunhão perfeita e completa entre pátria e idioma. E, ao encerrarmos estas considerações, não podemos deixar de relembrar Cícero, quando disse: "Não pode haver nacionalidade sem patriotismo, força que, como a vida, pulsa o coração".

E Guerra Junqueiro, o poeta português: "A pátria mais perfeita será mais local, pelo amor à gleba, e a mais universal, pelo amor ao mundo". Citações históricas e bem adequadas às nossas colocações em defesa do idioma pátrio.

voltar