Folha On Line - 25/09/2001

Ato pela paz e contra o terrorismo no Rio tem oração e Carnaval

FERNANDA DA ESCÓSSIA
da Folha de S.Paulo, no Rio

O ato inter-religioso pela paz e contra o terrorismo realizado nesta terça-feira no centro do Rio teve um pouco de tudo, da oração puxada por líderes religiosos à dança do ventre executada por uma odalisca, passando por protestos contra os Estados Unidos.

"Pensávamos num ato mais religioso, mas virou uma espécie de Carnaval da paz, com odalisca da paz e frango da paz (um frango de arame carregado por um manifestante). É uma coisa muito brasileira, muito carioca. O resultado foi positivo", afirmou Rubem César Fernandes, coordenador do movimento Viva Rio, que organizou o evento.

A manifestação aconteceu nas ruas estreitas da Saara (Sociedade dos Amigos das Adjacências da Rua da Alfândega), um mercado popular que reúne comerciantes de origem árabe (60% deles), judaica, chinesa e coreana, entre outras. É o equivalente, em São Paulo, à rua 25 de Março.

O evento reuniu lideranças religiosas católicas, luteranas, judaicas e muçulmanas, que fizeram preces pela paz. Participaram do ato cerca de 2.000 pessoas, segundo a Polícia Militar.

Puxando a manifestação iam, dançando, os descendentes de libaneses Amílcar Cortez, vestido de beduíno, e Ana Mouta, fantasiada de odalisca. Integrantes do grupo Afro-Reggae tocaram seus tambores. As ruas da Saara, por onde passam cerca de 60 mil pessoas nos dias de semana, ficaram lotadas.

Um pequeno mas barulhento grupo formado por cerca de 30 integrantes do MV-Brasil (Movimento pela Valorização da Cultura, do Idioma e das Riquezas do Brasil) levou cartazes lembrando atos de violência em que os EUA estiveram envolvidos.

"Hiroshima - 150 mil mortos", "Vietnã - 2 milhões de mortos", "Os EUA são inimigos da paz", afirmavam os cartazes.

"Não se pode falar em paz com tanta desigualdade no mundo. Os Estados Unidos têm de pensar também em tudo o que eles já fizeram", afirmou Wagner Vasconcelos, membro do MV-Brasil.

O Viva Rio se apressou a informar que os cartazes contra os EUA não faziam parte da idéia original da manifestação e que nem sabia da participação do MV-Brasil na marcha.

"Eu até estava participando, mas saí quando vi os cartazes. Não era a nossa idéia quando pensamos na manifestação", afirmou o comerciante judeu Abram Cytryn.

Rubem César Fernandes, do Viva Rio, disse que não era hora de atacar ninguém e aquele não era o objetivo da manifestação, mas que não seria possível impedir a exibição dos cartazes.

Pelos alto-falantes da rádio comunitária da Saara, o rabino Nilton Bonder, o xeque Abdelbagi Osman, o pastor luterano Mozart Noronha e o padre José Roberto fizeram preces (pouco ouvidas, por causa do barulho). Houve distribuição de pão árabe e pão judeu para a população.

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