Diário Vermelho - 30/10/2003
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EM DEFESA DA NOSSA CULTURA

Ganha força o movimento pró-folclore brasileiro contra o Halloween americano

Lendas e Mitos  
Sítio apresenta personagens do folclore paraense

Acontece em Belém (PA) entre os dias 24 e 31 de outubro, a Semana de Comemorações das Visagens dos Personagens do Folclore Paraense, mais conhecida como “Matinta Perera”. O evento é uma tentativa de contraposição às comemorações norte-americanas do Halloween (Dia das Bruxas) celebrado no dia 31 de outubro.

O projeto que criou a semana é de autoria do Vereador Paulo Fonteles, PCdoB, e tem o objetivo de promover atividades que divulguem a cultura regional. A iniciativa já recebeu parecer favorável de todas as comissões da Câmara Municipal de Belém e em breve, deve ir a votação.

Embora existam comemorações dedicadas ao folclore amazônico, ainda são insuficientes as que conseguem envolver a sociedade. Por isso, a Semana Matinta Perera pretende resgatar os personagens e facetas importantes para os paraenses através de atividades lúdicas realizadas em escolas municipais.

A programação da semana teve início com o 1º Seminário Matinta Perera de Valorização da Cultura Amazônica, atividade que reuniu 300 participantes, entre alunos de escolas municipais, universitários, professores, além grupos folclóricos e artistas. Será realizado ainda na próxima sexta-feira (31 de outubro), data em que se comemora o Halloween, o grande baile da “Matinta Perera”.

Para Paulo Fonteles, é necessário que as próprias direções das escolas estimulem a curiosidade dos alunos pelos personagens do folclore da Amazônia. “Precisamos combater a cultura do mal imposta pelos norte-americanos, que é disseminada no país através das escolas de língua inglesa. Temos que valorizar o nosso folclore, pois um povo sem cultura é um povo sem memória”, afirma o vereador.

Matinta

matinta.jpg (14880 bytes)A lenda da Matinta Perera conta que ela é uma mulher que mora no mato ou nos municípios do interior do Pará, e que se transforma em animais, tais como coruja, porco, tatu e preguiça. Dizem que é a parteira, a curandeira, a xamã, isto é, mulheres maduras que não aceitaram a submissão dos homens e vivem sozinhas. Elas são as matintas, as “bruxas brasileiras”.

Suas aparições costumam ser repentinas e da mesma forma, desaparecem. A aparência da matinta é assombrosa, pois se veste com um camisolão grande de cores escuras e põe o cabelo todo para frente cobrindo o rosto, com o objetivo de não ser reconhecida. Durante a noite, sai pelas ruas pedindo tabaco para as pessoas. Também, afirmam que quando alguém duvida de sua existência ou maltrata a floresta e os animais, ela dá uma surra na pessoa.

Dia do Saci

A iniciativa do vereador comunista não é isolada. Em São Paulo, na pequena cidade de São Luís do Paraitinga, no Vale do Paraíba, será votado hoje um projeto de lei que visa transformar o 31 de outubro em Dia do Saci. A idéia é substituir a comemoração, principalmente nas escolas. Em vez de bruxas e gnomos, a manifestação cultural teria mulas-sem-cabeça, sacis e outras figuras folclóricas que explorem mais as tradições brasileiras.

Um dos autores do projeto, vereador Marcelo Toledo (PT), afirma que a iniciativa faz parte de uma mobilização nacional encabeçada pela Sociedade dos Observadores do Saci (Sosaci), que tem como objetivo promover a cultura brasileira. Um dos fundadores da entidade, Manuel Lume, conta que o grupo está organizando uma proposta para ser apresentada ao governo, para instituir o Dia do Saci no dia 31 de outubro.

Na montagem, cartaz do movimento MV-Brasil grudado em muro do Fluminense, no Rio de Janeiro; o Saci brasileiro e a abóbora do Halloween americano

Quem também embarcou na mobilização anti-Halloween foi o movimento MV-Brasil, conhecido pelos slogans "Halloween é o cacete; Viva a cultura nacional", "USA resistir é preciso. Viva o Brasil", entre outros.

Wagner Vasconcelos, um dos líderes do movimento, diz que o “Aloveêm”, como ele pronuncia, é mais uma das concessões culturais abusivas que fazemos aos norte-americanos. “Não somos contra o intercâmbio cultural, mas o problema é que na relação Estados Unidos–Brasil, só vêm deles para a gente. Isso não é troca, é abuso”, lamenta. O movimento já confeccionou 350 cartazes anti-Halloween para serem colocados em 110 bairros da cidade do Rio.

Um dos argumentos do MV-Brasil é que língua, cultura e economia andam de mãos dadas: “É tudo fruto da soberania econômica dos Estados Unidos. Eles sabem que a cultura é o caminho para exercer o domínio econômico”, diz Wagner. E continua: “Enquanto temos milhões de descendentes de italianos, alemães e portugueses, o número de originários de ingleses e norte-americanos é ínfimo. Por que então importamos essas manifestações culturais, que nada têm a ver com a gente? Dia 22 de agosto é Dia do Folclore e ninguém sabe disso. E olha que temos um dos folclores mais ricos do mundo”, salienta.

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